Cineteatro de Vouzela acolhe a peça de teatro “A Baba do Lobo”

No próximo dia 28 de junho, pelas 21h30, o Cineteatro João Ribeiro, em Vouzela, vai receber o espetáculo “A Baba do Lobo”, uma criação artística que nasce do projeto de investigação “As Viúvas do Volfrâmio e os seus Filhos”, reunindo vozes criativas de Portugal e do Brasil, numa reflexão profunda sobre a herança da mineração — um dos mais antigos ofícios da Humanidade — e a complexa relação entre o Ser Humano e a Natureza.

Dois dramaturgos Mônica Santana (BR) e Sandro William Junqueira (PT) escrevem textos originais, a partir de pesquisas e testemunhos recolhidos de um lado e do outro do Atlântico. A direção artística é de Graeme Pulleyn (PT) e Marcio Meirelles (BR). A música de Gongori (PT) e João Milet Meirelles (BR) e o vídeo de Leandro Valente (PT) e Rafael Grilo (BR). Em palco, duas bailarinas/atrizes experientes, Cristina Castro (BR) e Leonor Keil (PT), cruzam sotaques e movimentos numa linguagem performativa inovadora e complexa onde o corpo e a palavra se cruzam para levantar as grandes questões humanas e ambientais que enfrentamos.

O espetáculo junta-se às vozes que questionam, que afirmam e reivindicam, com urgência, a necessidade de olharmos para o passado, para informar o presente e preparar um futuro mais justo para nós e para o sistema ecológico do qual fazemos parte.

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SINOPSE:

Nos anos 40 do século XX, o volfrâmio na região de Viseu, apareceu como um “milagre económico”, que transformou as existências miseráveis de muitos lavradores, que até então passavam fome a granjear as terras hostis do interior do país, em vidas de luxo e excesso. Poucos terão parado para pensar nas consequências sociais, ambientais e políticas da exploração mineira, ou sobre as razões que levaram, tanto ingleses como alemães,a disputarem avidamente a tão cobiçada “baba do lobo”.

Nos anos 20 do século XXI, o minério é outro, mas as questões são as mesmas. Portugal tem alegadamente algumas das maiores reservas da Europa de lítio e outros minerais raros. Surgem agora novas “oportunidades” de exploração, justificadas pela promessa de um mundo mais elétrico e eletrónico, e pelas ameaças de um mundo em guerra. Mas será este, de facto, o caminho certo para a sustentabilidade? Do outro lado do mundo, o Brasil conhece bem as dicotomias da exploração dos recursos naturais. Este debate não é sobre um bairro, ou uma nação, é sobre o mundo em que todos vivemos. Não há como separar a paisagem ecológica e a paisagem humana.

O processo criativo começa com uma “consulta popular”. Como ponto de partida, os escritores encontram-se com comunidades nos diferentes municípios parceiros portugueses, todos eles impactados pelo extrativismo, para recolher testemunhos e histórias de mineiros, mas principalmente das suas mulheres (ou viúvas) e famílias. A comunidade é, assim, uma peça fundamental na conceção e na dramaturgia da peça.

Recolhas de áudio, vídeo e fotografia fornecem um acervo que alimenta a composição da música original, a sonoplastia e os elementos videográficos. Material de arquivo é cruzado com material atual para criar um espetáculo contemporâneo, composto por camadas de sentido, capaz de falar para todos os públicos.

Com poesia e ternura, humor e dureza, raiva e beleza, “A Baba do Lobo” coloca o dedo na ferida e procura provocar a reflexão e a discussão. O passado ensina-nos que cada escolha deixa marcas profundas na paisagem e na vida das comunidades. “A Baba do Lobo” convida a pensar futuros possíveis, a reimaginar a relação com os recursos naturais, onde a procura por soluções sustentáveis é feita com a participação de todos. Só assim, poderemos criar condições para que as próximas gerações não herdem apenas histórias de exploração, mas sim histórias em que o planeta é reconhecido como uma entidade viva.

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